Com muito Orgulho

Na semana passada, a cantora Daniela Mercury, assumiu, por meio de uma rede social, seu relacionamento homoafetivo com a jornalista Malu Verçosa. A declaração logo se espalhou e tornou-se um dos assuntos mais comentados na última semana, o que aumentou as discussões em torno do tema, tendo em vista toda a polêmica levantada recentemente em torno do pastor, deputado e presidente da Câmara dos Direitos Humanos, Marco Feliciano. Este, por sua vez, assume claramente sua repulsa pelos homossexuais, o que despertou naqueles que se autointitulam “liberais” e “a favor das classes minoritárias” um sentimento de revolta que tem ocasionado uma série de protestos. Daniela, que também diz defender a igualdade e o respeito às diferenças, aproveitou toda essa efervescência, mostrada praticamente todos os dias em diversos meios de comunicação, para demonstrar seu lado politizado em defesa às vítimas de preconceito e intolerância. Mas será que a cantora quis mesmo politizar em defesa dos direitos dos homossexuais, ou tudo não se tratou de uma jogada de marketing?

            Um pouco dos dois. Segundo Daniela Mercury, ela quis tornar pública sua relação com Malu Verçosa por não agüentar mais manter escondido seu relacionamento, por querer ser aceita e respeitada. Tratando a situação com muita naturalidade, a cantora se cobre de um velho e batido discurso em defesa do público LGBT que rapidamente se esvazia frente ao circo armado em torno do fato. Daniela, pelo bem ou pelo mal, é uma figura pública e sente-se no dever em dar satisfações sobre certas decisões em sua vida particular, mas só quando for conveniente, claro.
            Não podemos nos esquecer que a baiana já não vinha recebendo um destaque significativo na mídia há muito tempo, tendo em vista os tempos auges de sua carreira, muito antes das novas e também efêmeras sensações do Axé Music tomarem seu lugar. Antes da polêmica declaração, o que víamos era uma apagada Daniela Mercury, mais reservada e dedicada a vida pessoal. Assim como outros artistas já quase esquecidos pela cultura massificada (Ricky Martin, Lance Bass e a dupla Pepê e Neném) e que optaram por “sair do armário”, a intérprete de O Canto da Cidade aproveita-se para se autopromover, expondo ao máximo sua vida pessoal. Entretanto, não é possível dizer que tudo não passa de uma estratégia para reaver a chama da cantora no cenário midiático.
Daniela está certa ao tentar tratar tudo com a maior naturalidade possível, pois este é um tema que sempre foi causa de incansáveis e incontáveis discussões. Desnecessário é toda essa relevância atribuída ao relacionamento da cantora com a jornalista, como se, só pelo fato de se tratar de uma figura pública, a homossexualidade merecesse entrar em debate. Não! Não dá para esperar que uma celebridade se assuma homossexual para discutir o tema, enquanto todos os dias gays e lésbicas sofrem ataques nas ruas, no trabalho, na escola e os meios de comunicação não se dedicam a dar o destaque devido para algo muito mais grave e importante do que uma (sub)celebridade assumindo-se publicamente gay, algo que deveria estar reservado às mídias sensacionalistas que sustentam-se de “notícias” como essa.


Apesar de toda a estrutura e alarde montados em torno da declaração da cantora, Daniela Mercury pode sim realmente estar preocupada e comprometida com a causa dos homossexuais. Seu “espírito militante” não é tão recente, pois, desde 2008, ela já se envolve em causas filantrópicas por meio de instituições que visam o incentivo a cultura e o combate à fome. É verdade também que, por se tratar de uma figura pública, a homossexualidade repercutirá mais fortemente e levará mais pessoas a uma reflexão sobre o tema. Então sim, Daniela pode estar mesmo carregada de boas intenções. É direito dela querer ser livre, respeitada, feliz; e não é possível duvidar que ela queira isso para todos os seus semelhantes. Alguns dirão que Daniela já é uma artista consagrada e que não precisa expor-se dessa forma em troca de visibilidade, mas será mesmo que a vontade que a cantora tem de reascender sua carreira não é maior do que sua capacidade em conter tal desejo?