Irreverência à flor da pele

            Roberto de Souza Rocha, mais conhecido como Latino, é uma das personificações da chamada cultura de massa no cenário brasileiro. Com quase 20 anos de carreira na indústria do entretenimento, o artista hoje é um dos representantes da música popularesca que embala, desde os anos 90, um público massificado em festas, nas rádios e nos inúmeros programas de auditório da TV brasileira.
            Latino definitivamente não sabe cantar. Entretanto, isso nunca foi um problema pra ele, uma vez que seu papel é entreter e divertir seu público. Seus inúmeros hits possuem um conteúdo pobre, com o mínimo de originalidade e um repertório altamente redundante. Suas produções musicais são geralmente muito animadas e nos dizem, através de letras irreverentes e apelativas, que devemos esquecer o “mundo chato” em que vivemos e extravasar nossas energias cantando, dançando, pulando e botando “as mãozinhas pro alto”.

            A fórmula para o sucesso de Latino talvez seja a combinação entre músicas mal produzidas que se recusam a sair da cabeça das pessoas por um bom tempo, cantadas por rostinho bonito e carismático. E isso é basicamente tudo o que os consumidores desse gênero musical esperam de um produto midiático como ele. Alguns condenam o artista por pensar que ele nada mais é que um lixo comercial e irrelevante. Mas será mesmo?

            Em um dos seus shows, que aconteceu no dia 30 de dezembro de 2012, em Cabo Frio, ficou claro para quem estava lá o poder que Latino tem para entreter e não deixar ninguém parado. Suas apresentações contam com grandes efeitos visuais, muita luz, dançarinos empolgados e, claro, a excelente presença de palco do cantor. As pessoas pareciam estar em êxtase total ou parcial. Todo mundo alegre e recebendo uma energia de alta voltagem que parecia pulsar do palco. Alguns estavam tão entorpecidos que aparentemente não faziam nem ideia do que estavam cantando. Em uma de suas músicas, Latino canta o verso “Eu quero sexo!”, e uma criança com cerca de 7 anos de idade reproduzia as palavras, acompanhada de seus pais. Será que a culpa é do Latino por cantar músicas eróticas ou será que estes pais negligentes não perceberam o quanto esta simples frase pode afetar o desenvolvimento intelectual de uma criança e não se importaram em retirá-la do local por julgar o show como conteúdo impróprio para seu filho?

            A função do artista nada mais é do que entreter a qualquer custo. A chamada “arte erudita”, que obriga o leitor desta arte a pensar e criar um raciocínio crítico é muito chata. O que as pessoas querem mesmo é se divertir e esquecer, nem que seja por um instante, o que é tido como certo, ético e moralmente aceitável por uma sociedade cheia de regras comportamentais que devem, a principio, ser seguidas e respeitadas para o funcionamento de um convívio harmonioso entre as pessoas. E qual o problema em fugir um pouco destas regras? Esta é na verdade a proposta de Latino: simplesmente apertar um botão chamado “dane-se” e desligar-se dos problemas, sejam lá quais forem.
            O problema é quando as pessoas não conseguem encontrar um equilíbrio entre aquilo que é fútil - e meramente comercial – e aquilo que nos leva a reflexão, a uma interpretação mais aprofundada e crítica. Não há nada de errado com o Latino, uma vez que ele age dentro de suas finalidades, as quais são absolutamente compreensíveis. O que não pode acontecer é o cidadão prender-se a essa cultura massificada e tornar-se alheio a outros assuntos mais sérios e “chatos” que o rodeia.